Dois amigos de infância no Afeganistão, um deles, Hassan, de classe social mais baixa, é cheio de altruísmo, bons valores e devoção incondicional ao amigo. O outro, Amir, filho do dono da casa onde Hassan trabalha, vive comentendo pequenas crueldades e injustiças com o intuito de se sentir de alguma forma superior ao amigo, almejando se aproximar da figura poderosa e distante do pai. Essa relação é o ponto de partida para O Caçador de Pipas de Khaled Hosseini, livro que li esse final-de-semana e que me surpreendeu bastante. Seria fácil desenvolver esse tema em um clichê maniqueísta e alegórico sobre diferença de classes na sociedade instável do Afeganistão, onde diferentes etnias convivem num clima hostil.
O que fez a diferença num primeiro momento foi o fato de o narrador ser justamente Amir e não Hassan. Ao longo da história ele expõe todas as suas fragilidades e emoções, montando um cenário no qual as maldades que comete quase que passariam a fazer sentido em função de se atingir o bem maior de conquistar o afeto paterno. Em alguns momentos o leitor se vê desafiado a adotar uma postura imparcial que não se confronte com seu próprio senso de ética. A partir daí a relação já complexa entre os meninos se intensifica a um tal ponto onde cada um deles toma posturas irreversíveis dentro de seus papéis, o que promove uma divisão de águas que os transporta até a sua vida adulta, na qual Amir já se encontra refugiado nos EUA.
É lá que Amir se vê tentando construir uma vida relativamente normal, mas acaba sendo confrontado não só pelas lembranças do passado, como pela própria relação com o pai e com o cenário insustentável a que o seu próprio país chegou. Acompanhá-lo enfrentar todas essas questões (que se confundem e se sobrepõem na figura do filho perdido de Hassan que ele se propõe a resgatar) é uma experiência quase que catártica, razão pela qual eu não consegui desgrudar do livro até chegar à última página. O único ponto fraco é que por vezes o livro tenta apimentar o curso da história com lances hollywoodianos de ação nos quais obviamente o autor não se sente muito à vontade. Percebe-se que ele pode ter escrito o livro com outras ambições. Confesso que não foi muita surpresa descobrir que os direitos de filmagem do livro já foram adquiridos por Sam Mendes (Hello American Beauty).
Ficou curioso? Então leia aqui o primeiro capítulo e veja se dá vontade de parar por aí.
Escrito por Antaggio às 13h51
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